I
Esconde-se o sol atrás das montanhas
E meu amor dorme no leito dos céus apagados
O rumor dos pássaros atravessa as frias barreiras de minha janela
Mas bate e se espatifa no meu semblante frio e chocado
Que ergue envolto em um branco pano manchado de virgem sangue
A mulher de minha vida, a quem nunca pude tocar
Debruço meus lábios fervorosos sobre teu inanimado cadáver
E penso em como injusta é a malévola sombra do Senhor
Que do alto de tua nuvem, lançara á terra a esguia figura da mais bela mulher
E bem quando este deturpado abismo de homem deitara-se com a mesma
Para arrancar de teu pulsante coração algumas réstias de prazer
Arrancou-a das impetuosas e frigidas mãos deste que vos fala
E fez se ouvir tua gargalhada diante de minha expressão
Na forma com que a lua pairava nos pacatos olhos de minha amada
II
Fecundo em meu ser uma esperança de morrer breve
Pois sentido em minha vida já não encontro
Desejo a paz de espírito na inexistência do ser
Olho para o céu, e vejo uma arma na cabeceira
Antes que eu pegue-a, já não sou o que era antes
É a morte absoluta, impregnando-se em minha alma
Não a depressão, esta passageira morte da alegria
Ou o suicido, a constante morte do ser
Digo a morte de minha vida
Meu nome, meus escriturários
Como se jamais houvesse sido concebido
Pelo sêmen calcado no ventre morto de minha mãe
Fingir que por este mundo ingrato e doloroso jamais passei
E alçar aos céus sublimados
Para as estrelas corroídas pelo tempo e pela lógica
Que me confortarão em teus irreais seios tal como me confortava a amada.
Chego então até a arma.
Mas já não sou homem, como disse antes
Sou uma inconstância, uma incoerência
Um feto apagado na porta do útero
Sinto-me bem, no entanto
E quando o céu de minha boca arde em graus que nem o sol pode medir
Sinto que a paz incorpora-se em minha vida
E enquanto derrapo para o chão frio de meu apartamento
Olho para a parede descascada pelo tempo uma ultima vez
E descubro que a vida é bela, enquanto o sangue cobre-me a nudez.
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