I
Sombra
Curvei-me sobre a lápide do meu desejo
E ali estava teu frio cadáver
Apodrecendo sobre a laje profana
De um tumulo qualquer.
Já não a tenho em minhas mãos
E lágrimas salgadas anunciam meu choro
O raio que parte as nuvens não pode me atingir.
Amei-te mais do que pude
E agora que o sol se levanta no horizonte
E a noite vai embora
Percebo que está acrescida a minha sombra
A penumbra da minha morte.
II
Mar
Adentrei a este triste navio
Embarcação de rumos brutos
Mas de navegar suave
Para esquecer-me de ti que me deixou
E lembrar de como era doce o sal de tua boca.
Agora a água colide em mim
E o céu relampeja o choro das nuvens
As lagrimas do céu não abatem minha pele
Mas o teu sorriso e tua pele morena, enroscados em minha memória
Para sempre estarão
Lembro-me de como era bom tê-la comigo
Teu lábio roxo, tua pele de veludo
Teus seios duros, teu corpo rígido
Tua flor de êxtase
Aberta na primavera do prazer
Mas agora estou sozinho
E a escuridão do oceano
Devora-me.
III
Morto
Estou morto
Meu corpo desprendeu-se do invólucro da vida
E estou em queda livre
Tudo é cinza e preto
E sorrisos de desconhecidos inundam minha vista embaçada
Estou velho, lembro disso
E o céu é um eterno desatino de imagens desconexas
Estou morto.
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